Angústias inconscientes, sentimentos que iniciam de um lugar inesperado, mais no fundo só estavam adormecidos e mais perto do que imaginava, vazios emocionais que se transformam em fome emocional, o que está acontecendo que não estamos vendo?
Quando reflexos de um ambiente, crenças ou alguns hábitos, pode simplesmente tomar conta de uma mente sem percebermos, o que a maioria desconhece é que por trás da compulsão existe sempre um vazio e um pedido de ajuda.
Em alguns casos a comida pode ser utilizada como forma de recompensa ou até mesmo punição, criando vínculos com o alimento e não com o afeto em si, gerando inseguranças e desequilíbrios emocionais, algumas crenças familiares negativas sobre o peso corporal, baixa autoestima, indisponibilidade emocional e de tempo dos pais ou (cuidadores primários) para com os filhos são um dos fatores que mais colaboram para as possíveis causas do transtorno, o que se acredita ser saudável se torna trauma.
Alimentar-se com raiva, por insegurança afetiva ou ansiedade, transforma a comida como um refúgio, e frequentemente, substitui o afeto tão esperado. Em uma das principais passagens de Freud em seu estudo psicanalítico existe a fala sobre “A sombra do objeto recai sobre o Eu”, quando falamos em objeto não conseguimos imaginar que tudo o que se enquadra dentro da nossa ordem de desejo é tido como objeto, e uma vez não satisfeito ficará eternamente sobre nós, como no caso do afeto, o desejo que temos em tê-lo, por sua vez não é satisfeito através da atenção ou do carinho, e diante da sua falta recairá sobre a pessoa de maneira substituta ou como deslocamento – “forma de substituição”, que aqui é abordado como “comida”.
A relação com a comida reflete falhas na introjeção desse objeto primário (o cuidado materno), gerando uma busca insaciável e ilusória no mundo externo, buscando o que não se conseguiu internalizar emocionalmente.
Compulsão alimentar e fome emocional: o que está por trás desse comportamento
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A compulsão alimentar é mais comum do que se imagina, mas seus sintomas são na maioria das vezes ignorados ou silenciados, não à toa percebemos inúmeros adultos com problemas relacionados a alimentação, pessoas que lutam constantemente com o peso, com o que comem, com o que pensam sobre o alimento, e este processo todo se inicia na infância.
Dentro da psicanálise, o foco principal não está no comportamento em si, mais o que esse alimento representa, se ele é realmente visto como fonte de saciação, respeitando os limites fisiológicos ou se há uma compensação em termos de angústias ou de dinâmica familiar.
O processo de reestruturação do sujeito passa pela construção de novos sentidos diante das suas emoções, de maneira a diminuir a necessidade pela “fome emocional” de compreender quais são os fatores que levam a criança ou adulto a comer de maneira compulsiva ou até mesmo de passar horas a fio com fome.
Como conseguimos identificar que há algo de errado na alimentação infantil?
Quando a criança passa a desenvolver hábitos que não são normais para a sua idade, podemos notar visivelmente que ela está passando por um momento na qual ela não sabe explicar, geralmente envolvendo ansiedade, excesso ou falta de atenção demandada, situações traumáticas, ou ambientes estressores, essas são algumas das condições nas quais dentro dos sintomas mais comuns que surgem são os transtornos alimentares, notamos que o ato em se alimentar é realizado de maneira rápida diante de crianças da mesma idade como se estivesse com medo de ficar sem o alimento, colocar porções maiores do que a capacidade ou adequada de acordo com a idade e estilo de vida da criança, engolir os alimentos sem mastiga-los corretamente e principalmente realizar refeições sem horários definidos, ficar beliscando constantemente como maneira de saciar algo, comer escondido, exagerar na quantidade de alimentos a ser ingerido, porções sempre maiores.
Além dos sinais descritos acima podemos incluir também, além da pressa uma constante dificuldade de se sentir saciado ao terminar de comer, claro que logo após o episódio descontrolado vem o sentimento de culpa ou angústia por perceber o exagero ao terminar de comer, acompanhado de melancolia, cansaço e procrastinação.
Quando falamos em compulsão alimentar não se trata apenas do ato em comer demasiadamente mais do que o necessário, a compulsão alimentar é causada por uma complexa mistura que envolve fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicológicos, neles podemos incluir o estresse, ansiedade, depressão, problemas de autoestima e imagem corporal, histórico de dietas restritivas muitas vezes por apresentar problemas relacionados a saúde como diabetes, traumas por abusos ou até mesmo constantes cobranças dentro da família ou grupo de amigos que fazem bullying o que acaba desencadeando uma série de gatilhos emocionais, que levam a comer grandes quantidades de comida da forma mais rápida possível, sem controle, como forma de alívio ao lidar com todo esse desconforto, angústia e sentimentos negativos.
Fatores Psicológicos e Emocionais que levam a compulsão sem ser percebida
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A psicanálise avança onde a fisiologia se detém, amplia visões dentro do território científico para incluir fenômenos de personalidade, de sentimentos e de conflitos humanos, dentro dela conseguimos examinar a natureza humana e, quando o desconhecido se manifesta. Este estudo nomeado por Freud de metapsicologia nos permite ver além do que os olhos permitem, propiciando um campo investigativo através das emoções e sentimento onde sabe-se que sentem, mas muitas vezes não sabe como ou de onde vem. Quando juntamos fatores psicológicos e emocionais, podemos incluir como impulsionador de traumas e transtornos não só os relacionamentos mais também o ambiente. O psicanalista Donald Winnicott nos apresenta o quanto se é importante ter a percepção do ambiente que crescemos e desenvolvemos quem somos, onde uma hora somos normais e saudáveis e na outra estamos adoecidos repletos de medos e ansiosos pelo que se possa acontecer. E partindo de análises e teorias pode-se dizer que existem alguns fatores principais quando falamos de compulsão alimentar.
Estresse e Emoções Negativas
Muitos dos casos acompanhados mostra o quanto um ambiente pode influenciar a relação da criança com o alimento. Quando a criança vive em um ambiente relativamente toxico e estressor, podemos dizer que a ela começa usar a comida como refúgio ou alívio para momentos de ansiedade, tristeza, tédio ou raiva de situações que fogem de seu controle, por exemplo pais que brigam excessivamente sem perceber que o filho está presenciando tudo.
Baixa Autoestima: Famílias que visam a autoimagem como ponto principal em suas vidas, tendem a ter filhos altamente descontentes com a aparência e a autoimagem, muitas vezes por serem obrigados a fazer dietas, ou até mesmo por sofrer pressão por estar acima de seu peso, crianças que convivem com este tipo de relacionamento, acabam muitas vezes com transtornos alimentares como anorexia nervosa ou bulimia, buscando prazer ou conforto na comida, mas para não se sentirem culpados realizam o que chamamos de comportamento compensatório que envolve a eliminação como forma de compensar a ingestão de alimentos, as formas mais comuns são a indução ao vômito ou o uso de laxantes, geralmente estes comportamentos são vistos em adolescentes, devido ao alto nível de comparação e cobrança interna e externa. A falta e sentimentos de vazio levam muitas vezes a compulsão “excesso” de ingestão alimentar como maneira de suprir essa falta, a baixa autoestima começa quando a pessoa já não consegue mais se ver sem culpa, se entregando cada vez mais ao fracasso. Quanto maior o vazio maior a compensação.
Traumas: Dentro da psicanálise podemos dizer que quando a dor psíquica não pode ser processada mentalmente ou colocada para fora, ela é somatizada. O corpo se torna o registro do trauma, e a obesidade ou compulsão pode ser uma "couraça" ou uma “armadura” criando formas de lidar com a angústia, ignorando sinais naturais de saciedade. O trauma instaurado na infância é, por vezes, um desamparo originário onde o cuidador falha em proteger ou nutrir emocionalmente essa criança. O comer compulsivo torna-se uma forma de "atuar" (acting out) e esse trauma em vez de conseguir ser expresso através da fala leva ao preenchimento desse vazio do corpo com a comida. Experiências traumáticas, como abuso, podem aumentar ainda mais este risco.
Fixação na Fase Oral: Dentro da teoria freudiana, a compulsão pode estar associada à fase oral do desenvolvimento infantil, onde a criança tem sua primeira experiência com o mundo através da boca neste caso a satisfação do seu prazer é realizada através do ato de ser amamentado, o que leva a segurança, acolhimento e conforto. O trauma nesta fase significa uma quebra de continuidade no existir desse bebê, ao se ver obrigado ao desmame, dependendo de como for este processo de castração, essa criança poderá desenvolver uma fixação, onde o prazer e a saciedade oral (comer) tentam compensar sentimentos de raiva, tristeza e ansiedade na vida adulta.
Dificuldade em Expressar Sentimentos: Quando uma criança é calada constantemente ela sê vê em um mundo subjetivo, onde a sua adaptação vai diminuindo de acordo com a necessidade crescente de experimentar reações diante à frustração contínua, o nunca ser visto ou ouvido faz com que crie-se um self incapaz de comunicar necessidades e emoções, diante de uma realidade que se vê impossível de ser alguém, nesses casos desenvolve-se características e traços de personalidade onde o indivíduo se torna tímido, envergonhado, introvertido, se sentindo diminuído diante seus sentimentos, onde diariamente são reprimidos a ponto de um determinado momento precisarem ser exposto, deixando um vazio que só será preenchido com a comida.
Claro que falar de compulsão alimentar vai muito além do que só o ato de comer, pois, em cenários como os vivenciados atualmente, fica cada vez mais visível como a pressão social por padrões de beleza, excessos de conteúdos relacionados a estética e comentários sobre o corpo acabam impactando ainda mais adolescentes e jovens alguns, em alguns casos com início já na infância, afetando principalmente as meninas entre os 10 aos 18 anos de idade, que visam estar dentro das regras e padrões exigidos para fazer parte de grupos sociais, o ambiente familiar também vai apresentar padrões disfuncionais na forma de como a alimentação era vista na infância o que consequentemente gerava comorbidades frequentemente associadas a outros transtornos mentais como depressão, ansiedade, transtorno bipolar ou até mesmo dependência química, além claro da predisposição genética onde certos genes podem aumentar os riscos da obesidade, assim como desequilíbrios em neurotransmissores e peptídeos cerebrais (como o neuropeptídeo Y) que pode influenciar diretamente no desenvolvimento da obesidade por desempenharem papéis cruciais e opostos na regulação do apetite e balanço energético.
Em resumo, não há uma única causa, mas uma interação complexa de muitos fatores que levam a um ciclo de comer sem fim e mesmo que seja caracterizado pelo excesso ou pela redução drástica do consumo de alimentos, em ambas as situações vai existir o sentimento da culpa acompanhado por tristeza, vazio existencial, medo, ansiedade e distorções acerca da autoimagem associados ao temor de julgamento alheio e rejeição, sendo necessário acompanhamento com profissional da saúde mental, nutricionistas e endocrinologistas para ser realizado um tratamento adequado para que enfim este ciclo seja quebrado.
Escrito por Lucelia Perez
Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.