18 de março de 20265 min de leitura

O que o Coelho da Páscoa tem a ver com a sua Ansiedade?

Daiane Romano Psi

Daiane Romano Psi

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Profissional Verificado

O que o Coelho da Páscoa tem a ver com a sua Ansiedade?

Você já parou para pensar por que algumas pessoas fazem todo aquele teatro na Páscoa? Esconder ovos de chocolate, desenhar pegadas de talco no chão, fazer mistério... Muita gente acha que é "só coisa de criança", mas existe algo muito profundo acontecendo ali que dita como você, hoje adulto, lida com as pressões da vida.

A gente precisa aprender a "inventar" o mundo

Pegadas de coelho no chão, em direção a uma cesta de ovos de chocolate

Sabe aquele momento em que um bebê chora de fome e, num passe de mágica, o colo aparece e o alimento chega? Na cabeça dele, foi o desejo dele que criou aquela solução. O psicanalista Donald Winnicott explicava que essa "ilusão" inicial é vital. Ela nos dá a sensação de que somos potentes, de que nossos desejos têm valor e de que somos capazes de transformar a realidade ao nosso redor.

Quando os pais criam a mágica da Páscoa, eles estão oferecendo à criança o que chamamos de "espaço transicional". É um lugar de "descanso mental" onde o mundo não é tão duro, nem tão sem graça. É ali, entre a brincadeira e a verdade, que a gente aprende a sonhar, a criar e a ter esperança.

Por que isso importa para você hoje?

Se você não teve esse espaço, ou se precisou "crescer rápido demais" para enfrentar problemas de adultos (como divórcios difíceis, lutos precoces ou dificuldades financeiras na família), talvez hoje você sinta os reflexos disso na sua rotina:

Dificuldade de Inovar: Você sente que só consegue seguir regras e manuais. No trabalho, tem pavor de errar e não consegue imaginar saídas diferentes para os problemas.

Culpa pelo Lazer: Você acha que descansar ou brincar é "perda de tempo". Vive em um estado de alerta constante, como se algo ruim fosse acontecer se você relaxar.

Vida no "Automático": A existência virou um eterno checklist. Você acorda, trabalha, paga contas e dorme, mas sente que falta um "tempero", um brilho nos olhos.

A fantasia não é fuga, é ferramenta de sobrevivência

Criança brincando com caixas de papelão, exercitando sua imaginação

Muitos acreditam que "fantasiar" é fugir da realidade. Mas a psicanalista Melanie Klein descobriu em suas pesquisas e conceituou em seus estudos teoricos que a mente usa a imaginação para organizar a bagunça emocional que sentimos por dentro.

Quando uma criança espera pelo domingo de Páscoa, ela está treinando algo valiosíssimo: aguentar a ansiedade e a frustração. Ela aprende que a espera vale a pena e que existe algo generoso guardado para ela no futuro. Isso cria uma base interna que diz: "A vida pode ser difícil agora, mas eu tenho recursos para encontrar algo bom logo ali na frente". Sem essa base, qualquer imprevisto na vida adulta(como um feedback ruim ou um plano que deu errado) vira uma catástrofe insuportável.

Quando a "magia" faz falta, o corpo e a mente cobram a conta

Se perdemos essa capacidade de colocar poesia no dia a dia, a conta chega através de adoecimentos silenciosos. Talvez, você se identifique com algum destes quadros:

O "Adulto Robô" (Falso Self):

É aquela pessoa que funciona perfeitamente. É educada, trabalha bem, nunca reclama... mas sente um completo vazio por dentro. Ela não vive de verdade, ela apenas "performa" o que os outros esperam dela para ser aceita.

Depressão e Desânimo Crônico:

Quando o mundo perde o encanto porque a pessoa esqueceu como é acreditar no novo. A vida vira um tom de cinza constante.

Ansiedade e Necessidade de Controle:

Se eu não aprendi a "criar" soluções fantasiosas com o lúdico e o inesperado na infância, qualquer mudança de plano hoje vira um motivo de angústia extrema e sintomas de pânico surgem. Além disso, preciso controlar tudo e todos ao redor para tentar me sentir seguro.

Somatização:

Às vezes, o corpo adoece com dores musculares, enxaquecas, alergias ou problemas digestivos que os exames médicos não explicam. Muitas vezes, é a dor emocional que não encontrou um "símbolo" ou um sonho para sair e acabou "atacando" o próprio corpo.

A boa notícia é que essa capacidade de "fantasiar" e de lidar com as emoções de forma mais criativa pode ser recuperada.

Identificar que você está vivendo de forma rígida ou puramente funcional é o primeiro passo para resolver quadros de isolamento social, inibição criativa e aquela sensação angustiante de que você "perdeu o sentido da vida".

O coelho da Páscoa pode não existir fisicamente, mas a experiência de ter acreditado nele é o que te dá coragem, décadas depois, para abrir um negócio próprio, começar um projeto do zero, mudar de carreira ou se permitir amar e ser amado novamente. A maturidade real não é virar uma rocha, é saber que o mundo tem espinhos, mas escolher manter viva a capacidade de sentir a doçura, de encantar-se pela vida e pelas possibilidades que ela é capaz de nos proporcionar.

Se você sente que a vida está no "preto e branco", que você se tornou uma máquina de resolver problemas ou que a ansiedade te impede de desfrutar dos seus momentos de folga, saiba que existe outro caminho.

Sala de consulta terapêutica confortável

A Psicoterapia não é um espaço apenas para "tratar transtornos", mas para recuperar a sua capacidade de acreditar na vida. A terapia funciona como aquele "espaço transicional" da infância: um ambiente seguro, sem julgamentos, onde você pode voltar a criar, a dar nome às suas dores e a entender que ser maduro não significa ser sozinho. É aprender a integrar a realidade do mundo com a doçura e esperança que a gente nunca deveria ter deixado para trás.

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Daiane Romano Psi

Escrito por Daiane Romano Psi

Psicanalista Clínica de adultos, adolescentes e crianças. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ, Saúde Mental na Escola pela UFRGS. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.

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