Sabe aquela sensação de estar no meio de uma multidão e, ainda assim, sentir um vazio que os números, as notificações e a rotina não preenchem? É desse deserto que Saint-Exupéry fala. Não se trata de uma paisagem geográfica com dunas de areia, mas daquele silêncio ensurdecedor que criamos dentro de nós quando deixamos de "ver o carneiro dentro da caixa".
Muitas vezes, sufocamos nossa subjetividade para focar apenas no que é útil, mensurável e socialmente aceito. Passamos a vida tentando esconder nossas "faltas".
O Pequeno Príncipe trás uma mensagem interessante, quando demonstra que a angústia da existência é, na verdade, um chamado para o encontro com nossa própria verdade.
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O "Adulto Útil" e o Peso da Máscara
Quantas vezes você se pegou agindo como o Rei, tentando exercer um controle absoluto sobre o que é incontrolável? Ou como o Homem de Negócios, obcecado por acumular conquistas, títulos e bens que, no fundo, não cabem na nossa bagagem emocional?
Construímos essas defesas(nossos "asteroides" particulares) como castelos de proteção contra a solidão e a fragilidade.
O problema é que, quanto mais nos escondemos atrás dessa lógica rígida do "ter" e do "fazer", mais a nossa essência emudece. E a conta chega: uma dor que não encontra palavras para ser dita, acaba encontrando o corpo para se manifestar na forma de sintomas, tensões e exaustão.
O Risco de Cativar e o Medo de Perder
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A Raposa nos entrega a chave de ouro da existência: o vínculo. Mas vamos ser honestos? Criar laços dá um medo danado. Cativar alguém ou permitir-se ser cativado, é dar ao outro o poder de nos fazer falta(as vezes, para sempre). É aceitar a vulnerabilidade de saber que, a partir do momento em que o laço é criado, o mundo ganha novas cores, mas também novos riscos.
Muitas vezes, por conta de traumas passados, abandonos ou lutos não elaborados, preferimos o deserto árido, mas seguro, à uma "Rosa" que exige cuidado, tempo e paciência. É nesse conflito silencioso entre o desejo profundo de conexão e o pavor da rejeição que a ansiedade e a depressão costumam, por vezes, aparecer. Afinal, cuidar dá trabalho, mas não cuidar nos deixa vazios.
Quando o deserto se torna um labirinto
Existem momentos em que o "essencial invisível" deixa de ser uma bússola e passa a ser um fantasma. A angústia, que em doses pequenas nos move, pode se tornar um labirinto paralisante quando:
O peso da performance: A necessidade de ser o "Rei" (o perfeito, o inabalável) esgota todas as suas reservas de energia.
O isolamento do deserto: A solidão deixa de ser um espaço de autoconhecimento e se torna um muro que te afasta de todos.
A repetição do Acendedor de Lampiões: A vida vira um ciclo mecânico de obrigações sem sentido, onde você acende e apaga as luzes apenas por hábito, sem saber para quê.
O tempo desajustado: O medo do futuro ou as marcas do passado te impedem de respirar o agora.
Esses sinais não indicam fraqueza. São, na verdade, o seu mundo interno gritando que o deserto ficou grande demais para ser atravessado sem companhia.
Um convite ao cuidado
Cuidar da sua saúde mental é, antes de tudo, permitir-se ser o aviador que faz as pazes com a sua criança interna. É entender que não precisamos ter todas as respostas, mas precisamos de um espaço seguro para fazer as perguntas certas.
Agende sua consulta e vamos caminhar juntos por esse deserto.
Escrito por Daiane Romano Psi
Psicanalista Clínica de adultos, adolescentes e crianças. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ, Saúde Mental na Escola pela UFRGS. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.