Páscoa, Espiritualidade e Psicanálise
Todos os anos, a simbologia da Páscoa como renascimento envolve milhares de pessoas, que, sem perceber, vivenciam um momento de confronto, caos interno e angústia. A "morte" simbólica vem em nossa psique representada como o luto de um ente querido, a perda de um emprego, de um amor verdadeiro, uma doença ou até mesmo uma dificuldade diante da vida.
Neste momento de renascimento, superamos e transformamos esses sentimentos traumáticos em uma nova chance de viver, permitindo que ressurja em nós um sujeito com mais autenticidade e integração ao seu meio, capaz de enfrentar todas as limitações e dificuldades que vão surgir dali em diante.
As Principais Ligações entre Páscoa e Psicanálise
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A Páscoa nos convida à superação do medo, principalmente o da "morte". Na psicanálise, tanto Freud como Lacan mencionam o medo de viver em seus vastos estudos sobre a mente humana. Como sujeitos, estamos sempre em busca de uma vida ativa e desejante; esse fator biológico produz as primeiras situações de perigo e cria a necessidade de ser amado. O medo nos transforma, e falar sobre o fim traz desconforto e insegurança sobre algo indivisível à nossa alma. Simbolicamente, ao falar de Páscoa, falamos sobre a oportunidade de uma renovação da vida em si.
Por diversas vezes falhamos ao acreditar que estamos sempre corretos em nossa tomada de decisão. Diante das angústias e responsabilidades que possuímos, ignoramos opiniões, possibilidades, ocultamos a participação de pessoas importantes em nossa vida e nos colocamos no papel de soberania. Criamos dentro de nós mecanismos de defesa para lidar melhor com as dores já vivenciadas. Porém, essas são ações que nos levam a ter um pensamento mais egoico, o que possibilita vivenciar um sofrimento psíquico inconsciente, muitas vezes por desviar daquilo que aprendemos e acreditamos ser o certo.
A Metáfora da Ressurreição como Transformação Pessoal
A metáfora da ressurreição vem para nós como forma de mudança. Ela não é somente voltada ao lado religioso e de crença, mas surge de um ato onde podemos emergir de forma mais sábia diante de períodos difíceis ou traumas. Ela representa a transformação pessoal, o renascimento após enfrentar dores diante do desconhecido e do caos.
Ao falar sobre renascimento, nos colocamos no papel do autoconhecimento: saber sobre si mesmo e suas limitações, aprender a se posicionar diante das cobranças internas e externas, e aprender a falar "não" ao se sentir desconfortável. Muitas vezes, as crenças nos paralisam nas tomadas de decisões e nos vemos em uma névoa sem significado, sem clareza. A permissão diante dessas dificuldades faz com que consigamos discernir em meio a esses obstáculos, muitas vezes interpostos por nós mesmos.
A quantidade de vezes que vamos errar e quantas vezes não assumiremos esses erros, simplesmente por não aceitar essa nossa imperfeição, simboliza essa "morte" psíquica. É o tempo necessário para aprendermos a lidar com os nossos erros, angústias e nossa própria sombra. Enfrentar a "morte" de velhas formas de pensar permite o florescer de uma nova consciência.
O Confronto Inevitável com a Limitação Humana
Quando pensamos e falamos nas angústias que nos envolvem durante a vida, daquelas que nos atravessam e desencadeiam-se em ansiedade e aflição, podemos lembrar de quando Jesus se vê em agonia, sozinho, ao suar sangue, chorar e sofrer. Fica claro o quanto existe um temor diante do seu futuro. Esse temor ao desconhecido fica evidente ao imaginar a cena em que há o choque físico com a dor. Lidar com a vivência humana profunda traz a ânsia por saber que existirão sempre confrontos inevitáveis diante das nossas próprias limitações.
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O Simbolismo do Chocolate e o Despertar Psíquico
Já na contemporaneidade, representamos a Páscoa com a simbologia do chocolate. A troca do "ovo de Páscoa" é uma atividade que traz conforto, compensação e prazer, seja através de lembranças afetivas ou pelo ato oral ao saborear o doce.
A quebra da casca do ovo traz um sentimento de despertar que pode ser interpretado como a ruptura de barreiras defensivas, simbolizando que o verdadeiro renascimento ou despertar psíquico deve ser de dentro para fora, e não pelo meio que nos envolve. Por outro lado, podemos analisar essa relação com o doce identificando os desejos que estão inconscientes no sujeito, que visa a busca por afeto e acolhimento como forma de ocupar momentaneamente um lugar de preenchimento do vazio de uma perda, ou simplesmente reviver uma lembrança afetiva trocada em família.
Qual "cruz" você está carregando?
Esta é uma data em que o trabalho psíquico fica visivelmente ativo, onde o indivíduo é convidado a refletir sobre qual "cruz" está sendo mais pesada. É um momento em que se pode dar a chance de repensar sobre suas escolhas e caminhos a seguir.
A jornada da vida rumo a algo novo, como a busca pelo autoconhecimento, o equilíbrio emocional ou mesmo uma evolução mental, requer — além de longos períodos de reflexão e introspecção — ter coragem de estar diante de angústias, medos e conflitos internos, principalmente aqueles que nos colocam em padrões de pensamentos e repetições. Perceber-se como um ser imperfeito faz com que constatemos o desenvolvimento de uma nova consciência, mais clara e profunda.
O Renascimento e a Reconstrução da Subjetividade
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Da mesma forma que a narrativa sobre a Páscoa simboliza um renascimento espiritual e uma transição para uma nova fase de vida, em nossa psique podemos encontrar paralelos muito significativos: como desapegar daquilo que não serve mais, aceitar limitações, reconhecer momentos de fraqueza, perceber áreas onde mais procrastinamos e, principalmente, aquilo que mais machuca.
O sentimento de mudança reverbera neste momento em que a movimentação das nossas mentes se faz necessária. Assim sendo, este é um período em que o renascimento representa a passagem pelo desamparo e a reconstrução da nossa subjetividade, onde o simbolismo é visto como tempo de novas elaborações como sujeito.
Certamente, a Psicanálise vem para nos convocar a uma escuta mais acolhedora do coração, a dar um passo mais audacioso rumo a uma vida que, apesar das dificuldades, ainda possa resplandecer para todos.
Escrito por Lucelia Perez
Do interior de SP, atualmente resido em Manaus onde atuo em clinica presencial e também online, já se conectou com pessoas de diversos países além do Brasil. Antes de se tornar Psicanalista foi Administradora de Empresas especialista em Gestão de Negócios por 20 anos. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica ao longo dos anos tenho me especializado em diversas áreas da saúde mental como Neuropsicanálise, Psicanálise Infantil, Psicossomática, Psicopatologia, Neurociência do Desenvolvimento Infantil, Compulsões, Psicologia Clínica, além de participações em Congressos e Cursos.