Sabe aquela sensação de que existe uma prateleira invisível onde o mundo guarda o conceito de "pessoa normal"? A gente passa boa parte da vida tentando esticar o braço para alcançar esse lugar, acreditando que, uma vez lá, tudo estará resolvido. Mas, se puxarmos uma cadeira para conversar com Winnicott, ele provavelmente nos daria um sorriso gentil e diria que essa prateleira, na verdade, nem existe.
O que é ser "normal"? Uma construção cultural e temporal
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A primeira coisa que precisamos desaprender é a ideia de que a saúde mental é uma constante universal, como a gravidade. O que chamamos de normalidade é, no fundo, um acordo coletivo que muda conforme os anos passam. O que era considerado um comportamento exemplar ou "normal" há cem anos, hoje pode ser lido como uma rigidez asfixiante ou até uma forma de violência.
Por isso que o "normal" é mais parecido com um tecido costurado pela cultura do que com uma linha de chegada. Se você nasce em um ambiente onde o silêncio é algo habitual, sua saúde será medida pela sua capacidade de calar, se nasce onde a expansividade é a regra, o silêncio vira sintoma. Isso nos tira um peso enorme das costas: entender que muitas das nossas "esquisitices" são apenas desencontros com as expectativas de um grupo específico, em um tempo específico.
A Teoria de Winnicott: O ambiente e o desenvolvimento emocional
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Estudo a anos a teoria winnicottiana e nela o foco sai do indivíduo isolado e se volta para o cenário, não somos ilhas. Nosso desenvolvimento emocional é em conjunto com o ambiente, começando por aquele primeiro universo que é a relação entre quem cuida e quem nasce.
O "ambiente suficientemente bom" e o Holding
O "ambiente suficientemente bom", é uma das expressões mais libertadoras da psicologia. Não se trata de perfeição, é sobre presença e resposta. O que é saudável para uma pessoa depende de como o mundo ao redor reagiu às suas necessidades mais primitivas. Quando o ambiente é capaz de nos sustentar (o famoso holding), a gente ganha o direito de simplesmente ser. Quando o mundo falha demais ou é invasivo, a gente para de crescer para começar a se defender. É aí que a nossa "normalidade" vira uma máscara, um esforço exaustivo para agradar o entorno enquanto o nosso eu verdadeiro fica escondido.
Como as Redes Sociais distorcem a nossa saúde mental
Hoje, esse "ambiente" se expandiu para o digital, e a régua de comparação subiu a níveis irreais. O ambiente virtual substituiu o convívio direto por um algoritmo de desempenho constante. Antes, a gente se comparava com o vizinho, hoje a métrica é o recorte filtrado de milhares de estranhos.
No Instagram ou no LinkedIn, consumimos sucessões de ápices. O problema é que o cérebro não processa bem essa quantidade de "perfeição" em série. Comparamos o nosso bastidor — com todo o caos e tédio da vida real — com o palco editado do outro. Essa dinâmica cria uma pressão estética e existencial inédita. A normalidade agora exige uma produtividade implacável e uma felicidade inabalável. O resultado é uma sensação crônica de insuficiência: o comum passou a ser visto como fracasso.
A armadilha do "Falso Self" digital
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As redes sociais funcionam como um laboratório de aprovação social, onde o "like" valida nossa identidade. Passamos a moldar nossa personalidade e nossos hábitos para caber no que o algoritmo premia. É a performance da vida em vez da vivência da vida. Tentar manter esse "falso self" digital — impecável, mas rígido — gasta uma energia mental absurda. Ficamos ocupados demais parecendo bem-sucedidos para a tela e perdemos a conexão com o que realmente sentimos.
Afinal, o que é ter uma saúde mental saudável?
Em tese, não se ajustar a um padrão, mas integrar todas as nossas partes, inclusive as mais caóticas. Ser saudável tem muito mais a ver com a vitalidade, com a capacidade de criar, "brincar com a realidade" e de se sentir real, do que com a ausência de conflitos.
Não se trata de atingir um estado de equilíbrio estático, como uma estátua. A maturidade emocional é um processo vivo, muitas vezes bagunçado, onde o desafio é habitar o próprio corpo e a própria história com alguma dose de autenticidade.
No fim das contas, a normalidade não é um destino onde a gente chega e estaciona. É a liberdade de não precisar ser um personagem o tempo todo. É entender que o mundo pode ditar o figurino da época ou o filtro da vez, mas quem dá o ritmo aos passos — ainda que por vezes tropeçando — somos nós.
Escrito por Daiane Romano Psi
Psicanalista Clínica de adultos, adolescentes e crianças. Membro da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica. Pós-graduada em Psicologia Clínica, possuo especializações em Neurociência do desenvolvimento pela PUCRS, Sociologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Psicofarmacologia. Saúde Mental e Atenção Psicossocial de Adolecentes e Jovens pela FIOCRUZ, Saúde Mental na Escola pela UFRGS. Graduada em psicomotricidade pela UNICV.