9 de junho de 202623 min de leitura

Autismo e Política: Por uma clínica da delicadeza

Cássio Prado

Cássio Prado

AUTOR

Profissional Verificado

Autismo e Política: Por uma clínica da delicadeza

Pode-se dizer que o termo “autismo”[1] surgiu em 1908, forjado pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857-1939), como um sintoma fundamental da psicose esquizofrênica, na forma de retraimento social com a correlata fuga da realidade externa para o mundo interior. Conforme o psicanalista lacaniano francês, Jean-Claude Maleval (79 anos): “Segundo Jung, o termo bleuleriano seria uma contração de ‘autoerotismo’”[2] – conforme a Carta de Jung, aos 13 de maio de 1097. In: S. FREUD; C. G. JUNG, Correspondência completa. Organização de W. McGuire. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 86.

Com os estudos clínicos de Leo Kanner (1894 – 1981) e Hans Asperger (1906 – 1980): “um em 1943, em Baltimore (USA); outro em 1944, em Viena (AUS), sem que conheça os trabalhos um do outro, isolaram um quadro clínico muito semelhante e o denominaram com o mesmo termo: ‘autismo’”[3], de acordo com Maleval. Kanner o descreveu como “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo” e Asperger como “Psicopatia Autística”.

Embora o autismo fora destacado e isolado na década de 1940, conforme dito, o termo vai aparecer oficialmente somente em 1952 na primeira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) – uma espécie de “bíblia”[4] universal em matéria de saúde mental – mas citado apenas como um sintoma da esquizofrenia infantil. Somente em 1980, com a publicação do DSM-III, que o autismo se tornou uma entidade clínica nosográfica independente com o nome “Autismo Infantil”, evoluindo para “’Transtorno Autista’ no DSM-III-R (1987)”[5]. O DSM-IV publicado originalmente em 1994, também sofreu uma revisão no ano de 2000, resultando no DSM-IV-R. Segundo o psicanalista francês, Éric Laurent, o “autismo foi reduzido ao contexto de TID (Transtornos Invasivos do Desenvolvimento)”[6]. Nessa nova versão revisada, o “Autismo Infantil” foi associado à Síndrome de Asperger e ao Transtorno Desintergrativo da Infância. Desde então, é importante salientar, inclusive na abordagem contemporânea, que a causa do autismo é devida a fatores biológicos, genéticos ou ambientais, embora vários psicanalistas lacanianos, eminentemente Rosine e Robert Lefort, tenham propostos uma via de abordagem radicalmente diferente e subsersiva, privilegiando o inconsciente e o último ensino do psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), sobrelevando o Autismo à quarta estrutura subjetiva, ao lado das Neuroses, Psicoses e Perversões.

Em 2013 foi publicado o DSM-V, sua versão atual, provocando “uma mudança paradigmática acerca da classificação do autismo, isto porque o conceito de espectro tão defendido por Lorna Wing passou a ser utilizado. A nova classificação foi denominada de Transtorno do Espectro Autista (TEA)[7].

A Batalha do Autismo: De Doença a Deficiência e a Luta por Direitos

Entrementes, na esteira da “batalha do autismo” de Laurent: “desde o final dos anos 1960, ‘os pais pressionaram a favor do diagnóstico de autismo, pois era a única forma de distúrbio de aprendizagem que não estava classificada como ineducável na UK’”.[8] Portanto, era preciso enquadrar o autismo no campo da “deficiência” – diferente de doença –, para que os pais reivindicassem direitos de acesso dos filhos autistas a instituições de educação especializada.

Nos Estados Unidos da América (EUA): “o retardo mental da irmã de John Kennedy também favoreceu a sensibilização dos poderes públicos no tocante a esses direitos.”[9]. Desta forma, o autismo se espalhou feito epidemia, o que obrigou maiores investimentos em pesquisa e ofertas de créditos para a educação das crianças autistas.

O deslocamento de foco, da “doença incurável” para a “deficiência educável” pode ser atribuído também à falta de eficiência dos medicamentos prescritos para a patologia autista, especialmente os neurolépticos (antipsicóticos), “torna, sem dúvida, mais necessário o anúncio de progressos decisivos nas pesquisas genéticas ou ambientais – ainda que apenas para diminuir a angústia dos pais e familiares dos autistas”[10], de acordo com Laurent. O autismo não era mais uma doença a ser tratada, mas uma “deficiência” a ser educada.

Nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, “os partidários das terapias comportamentais e educativas propõem mobilizar os pais e crianças num esforço intensivo e sem descanso, exigindo o investimento máximo de cada um – tanto financeiro quanto relacional, e em todos os momentos do dia”[11], levando um número expressivo de pais ao esgotamento e colapso, com consequências trágicas e letais.

O Movimento da Neurodiversidade e a Quebra de Paradigmas

Uma gaiola antiga aberta com pássaros de origami coloridos voando em direção ao sol, simbolizando a neurodiversidade, a quebra de rótulos rígidos e a libertação dos estigmas

É importante destacar ainda o impacto retumbante produzido pelo texto-manifesto de Jim Sinclair (63 anos), militante autista e ativista norte-americano: Não chore por nós (“Don’t Mourn for Us[12]”), escrito e apresentado na Conferência Internacional sobre Autismo de 1993, em Toronto. Ao lado da brilhante escritora e artista australiana, também autista, Dona Williams (1963 - 2017), considerados pioneiros na defesa intransigente dos direitos dos autistas pelo mundo, em palestras, conferências, artigos e livros, fundadores do Movimento de Direitos dos Autistas na década de 2000, com a participação expressiva de autistas, familiares e simpatizantes da causa, também críticos ferrenhos da onda mundial ultradireitista da pecha antivacina.

No ensaio ‘Não chore por nós’, destinado aos autistas de diferentes habilidades, pais e cuidadores, J. Sinclair propõe, fundamentalmente, uma outra discursividade sobre o autismo, deixando de tratá-lo com uma doença focada na cura para ser mais do que uma “deficiência diferenciada das outras”, para ser uma nova “cultura autista”, como forma de ser no mundo.

Desde então, a influência de Sinclair foi decisiva para tentar desvincular o autismo da narrativa hegemônica trágica e vitimista, na qual ele sempre esteve profundamente detido, para sobrelevá-lo a um novo enunciado discursivo, que passou a ser utilizado pelas mais diversas associações de autismo no mundo, como a Associação Portuguesa Voz do Autista. “Autismo não é uma doença. Doença implica estar doente, e inclusive pode morrer da doença. Ninguém morre de Autismo, nem existe qualquer cura[13]

No caminho posto, o significante “doença” se deslocou para um outro significante: “deficiência”, mas tão logo deslocado para “neurodivergência”, forjado “pela comunidade autista e popularizado em 1998 pela australiana Judy Singer, socióloga e autista, que classificou certas condições neurológicas como variações naturais da diversidade humana, e não como doenças ou perturbações”.[14]

Assim, o autismo deixa de ser uma doença e se torna um “desenvolvimento neurológico atípico (neurodivergente), pois não é uma doença a ser tratada. Trata-se antes de uma diferença humana que deve ser respeitada como outras diferenças (sexuais, raciais, entre outras)"[15], modelo defendido ferrenhamente por grupos militantes da causa autista, sobretudo os portadores da síndrome de Asperger, contudo, na contramão de grupos de pais de filhos autistas e profissionais que buscam uma cura para a doença, investindo em pesquisas diversas, com avanços no campo da genética[16]... fenótipos... genoma, neuroimagens[17] e outras mais das neurociências.

A Indústria do Autismo e o Discurso Capitalista nos Tratamentos

Uma peça de quebra-cabeça única e colorida destacada no meio de blocos cinzas idênticos em uma esteira, representando a defesa da subjetividade única contra a padronização e o adestramento

O autismo, que nasceu na forma de um sintoma isolado na esquizofrenia de Bleuler, decomposição do autoerotismo freudiano, não é mais uma espécie de “vilão a ser tratado” e se torna “uma celebridade a ser adestrada”, um verdadeiro fenômeno cultural em voga, definitivamente capturado pelo discurso capitalista copulado com as ciências, oferecendo em seu mais recente menu os novos e infalíveis gadgets[18] tecnológicos para o cuidado do autismo: a moda é o adestramento da psicologia comportamental associado ao cognitivismo do método ABA, pois o TEA passa a ser perfeitamente mensurável e tipificado em gradações relativas ao prejuízo cognitivo do autista: leve, moderado e grave conforme a “bíblia” DSM.

Portanto, “controlar a gramática do sofrimento [e do autismo, digo eu] é um dos eixos fundamentais do poder” capitalista até a sua atual versão ultraliberal, produzindo em escala planetária, de forma cultural e industrial, a dessimbolização da vida em sociedade e o seu processo correlato de imaginarização e objetificação do humano, destruindo subjetividades, mas ofertando ilimitadas tecnologias de gozo, de falsa completude imaginária, conforme nos presenteia o filósofo francês Dany-Robert Dufor (nascido em 1947) no livro A arte de reduzir cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal.

Assim sendo, a gramática do autismo capitaneada pelo discurso capitalista inunda o campo da Educação, pois “a principal consequência da mudança de abordagem do autismo consiste em não buscar cuidar deles, e sim educá-los, resultando disso que seu sofrimento psíquico não seja levado em consideração.”[19] sublinha Jacqueline Berger, jornalista norte-americana, mãe de duas crianças autistas e autora do livro Sortir de l’autisme, citada pelo psicanalista Jean-Claude Maleval.

A Exclusão Escolar Disfarçada de Inclusão

Chega ao Brasil o discurso retórico cidadão da inclusão do autista na comunidade escolar, todavia o que se vê cotidianamente, principalmente nas escolas públicas, é a sua exclusão iatrogênica, uma vez que a falta de formação especializada de professores e demais profissionais da educação é um fato incontestável, claro e cristalino, especialmente em países como o Brasil, onde parte significativa de sua população acredita que a causa do autismo está relacionada às vacinas. Ora, conforme o ditado popular: de boas intenções o inferno está cheio. A falta de preparo emocional e especializado da maioria do corpo técnico e administrativo das escolas e da Educação em geral, em face à questão do autismo, tem produzido efeitos radicalmente contrários àqueles propostos pelo discurso político, qual seja, o bullying e a correspondente exclusão do autista: “Mesmo os educadores mais sensíveis aos problemas específicos dos autistas não podem ter permanentemente a disponibilidade necessária[20]”, pois, conforme Jacqueline Berger, “as perturbações de uma criança autista que, só para ela, demanda tanta atenção quanto a sala inteira”. Para Maleval “é preciso ousar levantar o problema da exclusão escolar dos autistas assim como faz J. Berger: estamos integrando verdadeiramente, pergunta ela, ou – ao lhes infligir sofrimentos insuportáveis por falta de meios – estamos, ao contrário, desintegrando alguns deles?[21]”.

O Papel da Psicanálise no Tratamento do Autismo e a Defesa da Subjetividade

Frise-se que a Psicanálise, pioneira no tratamento do autismo, desde o caso da criança Dick, tratado pela psicanalista austríaca Melanie Klein (1882 – 1960), na década de 1930, tornou-se refém de um murmurinho universal ignóbil acerca de seu edifício teórico-clínico na batalha do autismo, isso atribuído até hoje pelas interpretações psicanalíticas selvagens de alguns de seus teóricos e simpatizantes ao cravar o termo “mãe geladeira”, culpabilizando as mães pelo autismo dos filhos. O preço dessa conta caiu inicialmente no colo de Bruno Bettelheim (1903 – 1990), reconhecido psicólogo austríaco que desenvolvia seu trabalho com crianças nos Estados Unidos da América (EUA), provocando assim o afastando de pais de crianças e adolescentes autistas dos consultórios e clínicas psicanalíticas.

A apologia à ortopédica da modelagem comportamental-cognitivista com a sua nova estrela ABA – utilizada indiscriminadamente em consultórios e clínicas públicas e privadas, quase sempre com o objetivo financeiro-ideológico para “laudar” os sujeitos “neuropsicossociais e pedagogicamente diferentes” matriculados nas escolas herdeiras e reprodutoras do controle e da disciplina militar, “em razão da lógica de mercado que se insinua com força no domínio da saúde, para a qual é necessário constranger o humano numa abordagem contável e objetivante”[22]. Esse modelo operacional da indústria do autismo no que se refere ao treinamento e condicionamento do autista em busca de padrões comportamentais aceitáveis pela normatização e normalização social, tem servido de certo acalento, embora caro e fugaz, aos pais dos autistas que buscam alguma luz, mesmo que refratária, uma vez que o rótulo diagnóstico resultante da confecção epidêmica de laudos neuropsicopedagógicos lhes sejam excessivamente dispendiosos assim como é extremamente exaustivo para os pais e seus filhos autistas todo o processo avaliativo e a sua terapêutica prescrita, que, diga-se de passagem, em alto e em bom som, demite o sujeito do inconsciente (alíngua), exorta o singular e pisa na subjetividade. A lógica é a padronização de indivíduos, “lógica que converge com a ideologia científica, para esquecer aquilo que todo epistemólogo sabe: que a eficácia da ciência só advém como o custo considerável de uma sutura da subjetividade.”[23]

Diante disso, não é difícil perceber as pesadas consequências sociais para o tratamento das crianças autistas, pois “o conceito contemporâneo de autismo, forjado na Internet pelos partidários do ‘todo biológico’, passado adiante por centenas de associações de pais de autistas, é construído em torno da iminência da descoberta de sua orgânica”[24]. Tal suposição joga na lata do lixo trabalhos importantes e inovadores já realizados por pesquisadores, teóricos e clínicos que se dispuseram a “escutar” e sobrevalorizar a subjetividade de sujeitos autistas, como Bruno Bettelheim (com Joey), Melanie Klein (com Dick), Rosine e Robert Lefort (com Robert e Françoise) –. Conforme o psicanalista Jean-Claude Maleval, uma das maiores autoridades mundiais na pesquisa clínico-teórica do autismo “tão inovadores e exemplares, tão comprobatórios no que se refere às abordagens psicodinâmicas do autismo – podem, dentro de alguns anos, ser considerados negligenciáveis a título de uma priorização da busca de um fenótipo sempre inapreensível”[25].

Todavia, na contramão da indústria ultraliberal capitalista, especialista em produzir e vender constantemente ilusões através da mercantilização de seus objetos de completude imaginária, conforme dito, a Psicanálise se insurge, de forma subversiva, aos ideais da ciência baseada em evidências mercantis monetárias que insiste em universalizar e tornar homogêneas as singularidades. “A psicanálise repousa num saber testemunhado há mais de um século, mas não é uma ciência: é um trabalho artesanal, orientado por aquilo que escapa à ciência, a saber: a subjetividade, bem como as suas produções.[26] E ainda, “deve-se a ela (Psicanálise) não só o estudo da lógica dos sonhos, lapsos e fantasias, mas também essas descobertas mais recentes que são os objetos transicionais (Winnicott) e os objetos autísticos.”[27]

Este profissional, pós-graduando em Psicanálise e Autismo, ouviu recentemente de uma psicóloga cognitivista-comportamental, num serviço de saúde mental público – Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) – que “a psicanálise atrasa o desenvolvimento psicológico e cognitivo das crianças autistas, demora muito tempo e é incerta quanto aos seus resultados.”. No momento de seu enunciado, a psicóloga estava envolta com os apetrechos da ferramenta ABA (Análise do Comportamento Aplicada), avaliando gráficos e buscando as suas evidências científicas padronizadas. Ironicamente, havia apenas os componentes corretivos do gadget cognitivista comportamental ABA na sala, a criança referência de sua avaliação estava ausente assim como a sua subjetividade não percebida e não escutada, totalmente substituída pelo dispositivo tecnológico “abatizado” da indústria ultraliberal capitalista. De fato, a psicóloga do CAPSi está correta, “a psicanálise é um saber que não se sabe”, portanto sem previsão numérica padronizada de seus resultados, pois a Psicanálise é uma aposta decidida na subjetividade e no sujeito do inconsciente autista (no falasser), que embora possa parecer não falar, é um especialista em linguagem. De acordo Éric Laurent: “Em que consiste, então, a aplicação da psicanálise no autismo?”[28] Na trilha de Rosine Lefort, Laurent responde: “Trata-se de permitir ao sujeito livrar-se de seu estado de retraimento homeostático no corpo encapsulado”. Isso supõe tornar-se o novo parceiro desse sujeito, com exclusão de qualquer reciprocidade imaginária e sem a função da interlocução simbólica”.

Enfim, é preciso o analista se fazer presente na borda aberta pelo autista e se deixar levar por ele, não se esquecendo do trabalho magistral dos psicanalistas Rosine e Robert Lefort, empenhados na causa desde a década de 1950: “Como consegui-lo sem que o sujeito sofra uma crise impossível de suportar? O suporte de um objeto – e para isso, para além de qualquer dimensão de jogo – é necessário para se tornar parceiro do autista: ‘Sem objeto, não há Outro.’”[29].

Hoje já é do conhecimento da comunidade psicanalítica lacaniana, do Campo Freudiano, que o trabalho educacional não basta para tratar o autista, “em última análise, apenas por intermédio de uma escolha decisiva e dolorosa de abandonar as satisfações do seu mundo assegurado que certos autistas chegam a uma atividade de alto funcionamento”[30], ultrapassando, portanto, as restrições de sua imutabilidade e solidão para se tornar um sujeito portador de uma subjetividade singular que possa fazer escolhas pessoais.

A Realidade Brasileira e a Clínica da Delicadeza

Duas poltronas confortáveis com uma orquídea delicada florescendo entre elas, simbolizando o espaço seguro da análise, a escuta acolhedora e a clínica da delicadeza

No Brasil, onde grande parte de sua população flerta com o fascismo – mesmo com a recente prisão do criminoso Jair Bolsonaro – a falta de informações adequadas da maioria de nossos políticos, principalmente no campo da gestão da saúde pública em que a prioridade é o marketing político baseado em resultados esperados pelo estabelecimento de metas e de indicadores a serem cumpridos, regidos pelo furor sanadi da produtividade capitalista, as notícias para os autistas não são nada boas, ao contrário, a realidade atual e o horizonte que se desponta são bastante preocupantes, pois nossos dirigentes políticos não apresentam o menor pudor em desnudarem-se em praça pública desprovidos das necessárias reflexões éticas, técnicas e políticas na abordagem do autismo, “a busca de uma solução única é uma tentação forte. Os métodos comportamentais, baseados na aprendizagem repetitiva de condutas pré-definidas, encarnam especialmente bem o engodo que o modelo ‘problema solução’ constitui”, e continua Laurent: “o caráter autoritário e reducionista dessa abordagem educativa é denunciado, em particular, pelos ‘autistas de alto nível’, que manifestam sua hostilidade contra a ‘indústria ABA-autismo’”[31].

Nos passos sonoros e escritos de Bartyra Ribeiro de Castro, eminente psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e professora da pós-graduação em Psicanálise e autismo, da Escola Mineira de Humanidades: “Seja qual for a origem ou a causa do autismo - genética, psiquiátrica, neurológica, alimentar, ambiental, psíquica, seja qual for a causa, há crianças, adolescentes e adultos autistas que necessitam que cuidemos deles”[32]. O foco da psicanálise é a subjetividade única do sujeito, do ‘falasser’ no real da clínica, cada autista é único apesar das tentativas de apreendê-lo num leque sintomatológico nosográfico reducionista operado pela Associação Americana de Psiquiatria com as suas ‘bíblias DSM’ e seus sectários. O que se vislumbra no real para a psicanálise é “uma clínica da delicadeza” (Bartyra Ribeiro). Do esvaziamento do saber para quem escuta.

Para o psicanalista Éric Laurent: “Um sujeito não cessa de ser um sujeito, mesmo que seu corpo seja ‘deficiente’ [...] o fato de haver algo biológico em jogo não exclui a particularidade de o espaço de constituição do sujeito como ser falante. Nesse sentido, como nota Lacan, a psicanálise não supõe uma psicogênese das doenças mentais.”[33].

Por fim, é absolutamente importante destacar a advertência da Professora Bartyra Ribeiro: “Autistas crescem. Seus cuidadores e responsáveis, pais, familiares, morrem. Eles precisam ter condições de habitar o social e de manter minimamente alguns laços essenciais à sua sobrevivência, além de alguns, poderem e deverem sustentar seus meios de vida.”.[34].

Fica a dica aos astros e as estrelinhas de plantão que sempre mostram as suas caras, ao lado de gestores leigos, aparecem lançando pelos ares as suas vozes Brasil afora, embebecidas em jargões repetitivos, às vezes ultrapassados, fazendo coros e odes aos janeiros brancos.... setembros amarelos.... Muitas cores ainda virão ao longo deste 2026, estamos apenas em janeiro. Como se a vida, a saúde e os dias do ano fossem de fato todos coloridos.... Embora se trate de ‘mídia política de alta intensidade’, frequentemente do tipo ‘marketing de influência’, já há sinais de ‘saturação de mídia’. Isso não interessa verdadeiramente à saúde mental e ao autista, que deve ser o principal protagonista de seu tratamento, pois Lacan nos ensinou que é preciso escutar o silêncio ensurdecedor dos autistas, pois são seres verborrágicos: se é certo dizer que o autista está fora do discurso (laço social) é tremendamente equivocado dizer que o autista está fora da linguagem.

A psicanálise não apenas pode, como deve ser ofertada para escutar os autistas nos serviços públicos brasileiros. Não perceber isso é uma tremenda gafe política desastrosa, especialmente para os gestores do campo da Saúde e da Educação. E, lembrando Bartyra, autistas crescem...!


Referências

[1] LEFORT, Rosine. A distinção do autismo / Rosine e Robert Lefort: Tradução Ana Lydia Santiago e Cristina Vidigal – 1ª ed. – Belo Horizonte: Relicário Edições, 2017, p. 49: “Eugen Bleuler havia introduzido o termo ‘autismo’ como sintoma da esquizofrenia para demarcar a categoria da ‘demência precoce’, segundo Emil Kraepelin. Foi o que o tornou conhecido como o inventor do autismo. Esse sintoma primário da esquizofrenia, mesmo atualmente, coloca a questão do diagnóstico diferencial entre esquizofrenia e autismo; para muitos autores, este último permanece no quadro da esquizofrenia.”.

[2] MALEVAL, Jean-Claude. O autista e a sua voz. São Paulo: Blucher, 2017, p. 44: “Bleuler confirma em sua obra sobre o ‘grupo das esquizofrenias’ que ‘o autismo é quase a mesma coisa que aquilo que Freud chama de autoerotismo’ e acrescenta: ‘O termo 'autismo' diz essencialmente, de modo positivo, o mesmo que o que P. Janet qualifica, de modo negativo, como 'perda do senso da realidade’.".

[3] Idem, p. 43: “Colocando à frente mais a psicopatia que o autismo, Asperger esforça-se por separar nitidamente seu tipo clínico da esquizofrenia ao passo que Kanner mostra--se mais hesitante. Ele sublinha que a desordem fundamental das crianças que está descrevendo ‘não se trata, como nas crianças ou adultos esquizofrénicos, de uma ruptura de relações previamente estabelecidas; não se trata de um 'retraimento' sucedendo uma participação’, pois ‘existe, inicialmente, um fechamento autístico extremo’.".

[4] FERREIRA, Renata W. G. e SILVA, Laurisse C. F. A trajetória histórico-conceitual do autismo na psicanálise. Revista Comunicação Universitária, Belém, v. 4, jan./dez., 2024, p. 11. Visto em 12/01/2026.
https://periodicos.uepa.br/index.php/comun/article/view/9544

[5] FERREIRA, Renata W. G. e SILVA, Laurisse C. F. A trajetória histórico-conceitual do autismo na psicanálise. Revista Comunicação Universitária, Belém, v. 4, jan./dez., 2024, p. 12. Visto em 12/01/2026.
https://periodicos.uepa.br/index.php/comun/article/view/9544

[6] LAURENT, Éric. A batalha do autismo: da clínica à política. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p. 28.

[7] FERREIRA, Renata W. G. e SILVA, Laurisse C. F. A trajetória histórico-conceitual do autismo na psicanálise. Ibidem, p. 12.

[8] LAURENT, Éric. Idem, p. 27.

[9] Ibidem, p. 28.

[10] Ibidem, p. 28.

[11] Ibidem, p. 31 e 32: “Prova disso é uma série de dramas recentes, como aquele ocorrido em 12 de abril de 2006, em Hull, Inglaterra: 'Alison Davies e seu filho de doze anos, Ryan, mataram-se atirando-se de uma ponte no rio Humber, no que foi um aparente homicídio-suicídio’17. Em 14 de maio do mesmo ano, em Albany, no Oregon, ‘Christophe DeGroot, dezenove anos, ficou preso dentro de seu apartamento em chamas. Morreu num hospital de Portland cinco dias depois e seus pais são acusados de homicídio por terem-no deixado sozinho trancado. No mesmo domingo de maio, em Morton, Illinois, a doutora Karen McCarron reconheceu perante a polícia ter, no dia anterior, asfixiado sua filha de três anos, Katherine, com um saco plástico de lixo’18. [...]. Esses casos chamaram a atenção de Cammie McGovern, ela mesma mãe de uma criança autista, pois esses pais, e sobretudo as mães, foram defendidos pelos vizinhos, que ressaltavam seu amor heroico pelos filhos doentes. Se a autora lhes deu destaque foi para que outros pais não tivessem esperanças tão grandes que, em seguida, pudessem levá-los a esses extremos.”.

[12] J. SINCLAIR. Don’t Mourn for Us. Autism Network International newsletter, Our Voice, Volume 1, Number 3, 1993. Visto em 25/12/2025.

[13] Associação Portuguesa Voz do Autista. Organização não Governamental de Pessoas com Deficiência (ONGPD), com sede em Aveiro. Portugal. (Uma associação de autistas, para autistas). https://vozdoautista.pt/

[14] Idem. Nada sobre nós sem nós. O que é autismo? Neurodiversidade: “existem diferentes cérebros e predisposição neurológica, com funções cognitivas, afetivas e percetivas diversas. O desenvolvimento neurológico atípico (neurodivergente), assim como o desenvolvimento típico: (neurotipico), são ambos acontecimentos biologicamente naturais, e necessários, e parte da neurodiversidade como um todo.”

[15] Francisco Ortega. Deficiência, autismo e neurodiversidade. Cien Saúde Colet [periódico na internet] (2007/out). [Citado em 03/01/2026]. Está disponível em: http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/deficiencia-autismo-e-neurodiversidade/1253?id=1253

[16] Ibidem. O que causa o autismo? “O autismo é genético, mas ainda existem algumas variações de genes que não sabemos como se originam. [...] causas ambientais podem afetar a composição genética ou o desenvolvimento neurológico antes do nascimento (não depois).”

[17] GRANDIN. Temple e PANEK, Richard. O cérebro autista: pensando através do espectro. 24 ed. Rio de Janeiro: Record, 2025, p. 39: “Pela primeira vez, graças a centenas ou milhares de neuroimagens de pessoas autistas, estamos vendo uma compatibilidade sólida entre os comportamentos autista e as funções cerebrais. [...] A hipótese de trabalho mantida por muito tempo tornou-se agora o consenso da evidência e da comunidade: o autismo está realmente no cérebro.”

[18] Gadgets: “‘objetos de consumo parciais que trazem uma satisfação fugaz e que rapidamente se tornam dejetos’. Esta associação entre o brilharesco do gadget e o dejeto é crucial, elevando-o a uma espécie efêmera de objeto-abjeto: ‘carros são ofertados como o complemento do motorista; sapatos esportivos são oferecidos ao consumidor não para correr, pois correr ficou ultrapassado: é preciso voar. ’ Seguindo essa lógica da oferta e do consumo, vemos ascender um tipo novo de oferta e de demanda, assim são ofertados fármacos de todos os tipos e espécies, principalmente, os psicofármacos para, não somente prevenção de doenças, mas também para aparentar excelência no meio social e profissional, já não faz mais sentido ser bom em seu trabalho, hoje é preciso ser um multiprofissional que chega às raias da perfeição.
Sofrimento Psíquico na Atualidade: Dos Gadgets ao Sujeito (Con)Sumido. Alexandre Simões e Outros. Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, 70910-900 - Brasília - DF – Brasil, 2019.

[19] MALEVAL, Jean-Claude. Idem, p. 31 e 32: “Ignora-se que a maioria das crianças autistas, como J. Berger constatou, misturam constantemente o fato de não saberem com o fato de não serem amadas, de serem um zero à esquerda, inexistentes. Encontram-se, a partir de então, cada vez mais frequentemente submetidas a técnicas de reeducação que ignoram seus receios e suas angústias e cujo trabalho é orientado pela obediência.”.

[20] Ibidem, p. 32.

[21] Ibidem.

[22] Ibidem, p. 28.

[23] Ibidem.

[24] Ibidem, p. 29.

[25] Ibidem, p. 28.

[26] Ibidem, p. 33. Porém, a abordagem psicanalítica mostra-se, hoje em dia, desconsiderada na literatura científica internacional, em nome de postulados epistemológicos não interrogados, segundo os quais os únicos trabalhos dignos de atenção seriam aqueles cuja pertinência poderia ser avaliada pela colocação em gráficos e em cifras ou por ‘ensaios comparativos randomizados’.

[27] Ibidem. “Ademais, a psicanálise lembra, como sublinha J. Berger, que o ‘estado afetivo dos pais é o primeiro oxigênio emocional que a criança respira’.

[28] LAURENT, Éric. A batalha do autismo. Idem, p. 54.

[29] Ibidem, p. 35.

[30] Ibidem.

[31] LAURENT, Éric Laurent. Idem, p. 24. “Suas preocupações legítimas levantam questões fundamentais: o que é aprender? O que é saber? A abordagem psicanalítica do autismo restitui toda a complexidade a essas perguntas que os autistas nos fazem. Elas contêm, com efeito, uma demanda, a de que enfrentemos a angústia da incerteza para não cair nas tentações autoritárias do modelo único.”.

[32] RIBEIRO, Bartyra. A psicanálise pode contribuir para o tratamento de autistas. Pós-graduação em psicanálise e autismo. Escola Mineira de Humanidades. Opção lacaniana. Visto em 31/01/2026.
http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_25/A_psicanalise_pode_contribuir_para_o_tratamento_dos_autistas.pdf

[33] LAURENT, Éric. Idem, p. 33.

[34] RIBEIRO, Idem.

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Cássio Prado

Escrito por Cássio Prado

Especialista em Psicologia Clínica. Especialista em Psicanálise e Autismo. Psicólogo Concursado em Brumadinho desde 2002 (RAPS). Escritor.

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