O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) caracteriza-se por uma acentuada instabilidade nos âmbitos emocional, relacional e identitário, sendo frequentemente associado a intensas oscilações de humor, impulsividade e sentimentos persistentes de vazio. Tais variações, comumente descritas como “altos e baixos”, constituem elementos centrais da experiência subjetiva dessas pessoas, impactando de maneira significativa sua qualidade de vida e a manutenção de vínculos interpessoais.
Entendendo o funcionamento Borderline pela Psicanálise
Sob a perspectiva psicanalítica, o TPB pode ser compreendido como decorrência de falhas nos processos iniciais de constituição psíquica, especialmente no que se refere às primeiras relações objetais. Conforme propõe Donald Winnicott (1965), o desenvolvimento emocional saudável depende da presença de um ambiente suficientemente bom, capaz de oferecer sustentação e favorecer a integração das experiências iniciais do bebê. Quando esse ambiente apresenta falhas, podem emergir dificuldades na constituição do self, contribuindo para quadros de instabilidade psíquica.
De acordo com Otto Kernberg (1991), o funcionamento borderline está relacionado a uma organização psíquica marcada pelo predomínio de mecanismos de defesa primitivos, como a clivagem, que impede a integração dos aspectos positivos e negativos do self e dos objetos. Essa dinâmica resulta em oscilações extremas entre idealização e desvalorização, refletindo diretamente nos chamados “altos e baixos” emocionais.
Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo analisar os altos e baixos no Transtorno de Personalidade Borderline sob a ótica psicanalítica, buscando compreender as suas origens, manifestações e implicações clínicas. Ainda se pretende discutir as contribuições da escuta psicanalítica no manejo terapêutico desses pacientes, considerando a complexidade de seu funcionamento psíquico.
Por que ocorre a instabilidade emocional no TPB?
A instabilidade emocional é considerada um dos principais marcadores do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), manifestando-se por meio de variações intensas e rápidas de humor. Indivíduos com esse transtorno podem transitar, em curtos períodos, entre estados de euforia, irritabilidade, ansiedade e tristeza profunda, frequentemente desencadeados por situações interpessoais percebidas como ameaçadoras.
Essas oscilações emocionais, muitas vezes descritas como desproporcionais aos estímulos externos, refletem uma dificuldade significativa na regulação afetiva. Do ponto de vista psicanalítico, essa dificuldade pode estar associada à ausência de uma função de contenção adequada durante as fases iniciais do desenvolvimento. Quando o ambiente falha em acolher e metabolizar as angústias primitivas do bebê, o sujeito tende a desenvolver recursos psíquicos menos elaborados para lidar com suas emoções.
Dessa forma, os “altos e baixos” não devem ser compreendidos apenas como alterações de humor, mas como expressões de um funcionamento psíquico marcado pela fragilidade na integração emocional, onde afetos intensos emergem de forma pouco simbolizada e muitas vezes avassaladora.
A dinâmica da clivagem e o medo do abandono
As relações interpessoais no TPB são frequentemente caracterizadas por intensidade, instabilidade e ambivalência. Os vínculos tendem a ser marcados por uma alternância entre idealização e desvalorização, refletindo a dificuldade do sujeito em perceber o outro de maneira integrada.
Kernberg (1991) propõe que esse padrão está relacionado à predominância do mecanismo de defesa da clivagem, típico de organizações psíquicas mais primitivas. A clivagem consiste na separação rígida entre representações positivas e negativas do self e dos objetos, impedindo sua integração em uma totalidade coerente.
Dessa forma, o sujeito borderline pode perceber uma mesma pessoa como completamente boa em determinado momento — fonte de apoio, segurança e afeto — e, em outro, como totalmente má, ameaçadora ou rejeitadora. Essa oscilação não decorre apenas de mudanças externas, mas de um funcionamento interno que não tolera a ambivalência.
Além disso, o medo intenso de abandono é um elemento central nessas relações. Pequenos sinais de afastamento podem ser vivenciados como rejeições profundas, desencadeando reações emocionais intensas e comportamentos impulsivos, como tentativas desesperadas de manter o vínculo ou, paradoxalmente, de rompê-lo abruptamente.
O sentimento crônico de vazio e a constituição do Self
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O sentimento de vazio, frequentemente descrito por pacientes com TPB, constitui um dos aspectos mais marcantes e angustiantes desse transtorno. Esse vazio não se refere apenas à ausência de emoções, mas a uma sensação profunda de falta de sentido, de identidade e de continuidade do self.
Segundo Winnicott (1965), a constituição de um self coeso depende de um ambiente suficientemente bom, capaz de oferecer suporte às necessidades emocionais do bebê e permitir a integração de suas experiências. Quando esse ambiente falha — seja por negligência, inconsistência ou intrusão — o desenvolvimento do self pode ser comprometido.
Nessas condições, o sujeito pode desenvolver um falso self, estruturado a partir da adaptação às exigências do ambiente, em detrimento da expressão de suas experiências autênticas. Esse falso self, embora funcional em determinados contextos, não oferece uma base sólida para a identidade, contribuindo para a sensação de vazio e descontinuidade.
Impulsividade e Acting Out como descarga psíquica
Esse vazio também está relacionado à dificuldade de simbolização das experiências emocionais. Sem a capacidade de dar significado aos afetos, o sujeito tende a vivenciá-los de forma bruta e desorganizada, intensificando os “altos e baixos” característicos do TPB.
Outro aspecto relevante no funcionamento borderline é a impulsividade, frequentemente expressa por meio de comportamentos autodestrutivos, como automutilação, abuso de substâncias, compulsões e tentativas de suicídio.
Na perspectiva psicanalítica, esses comportamentos podem ser compreendidos como formas de acting out, ou seja, ações que expressam conteúdos psíquicos que não conseguem ser elaborados simbolicamente. Em vez de serem pensados e verbalizados, os conflitos internos são descarregados através da ação.
O acting out pode funcionar, nesses casos, como uma tentativa de aliviar tensões internas intensas ou de comunicar, de maneira indireta, um sofrimento que não encontra palavras. Além disso, esses comportamentos podem estar relacionados a uma busca por sentir algo, ainda que doloroso, em oposição à vivência do vazio psíquico.
O papel do ambiente e o espelhamento no desenvolvimento
A compreensão do TPB sob a ótica psicanalítica enfatiza o papel fundamental do ambiente no desenvolvimento emocional. Winnicott destaca que o bebê depende de um ambiente suficientemente bom para desenvolver sua capacidade de integração psíquica, continuidade do ser e confiança no mundo.
Quando há falhas significativas nesse ambiente — como negligência, instabilidade, abuso ou inconsistência nos cuidados — a pessoa pode desenvolver dificuldades na regulação emocional e na formação de vínculos seguros. Essas falhas podem comprometer a internalização de figuras cuidadoras estáveis essenciais para o desenvolvimento de um psiquismo organizado.
Além disso a ausência de uma função de espelhamento adequada pode dificultar o reconhecimento e a validação das emoções da pessoa contribuindo para a confusão identitária e para a instabilidade afetiva.
O manejo do paciente Borderline na clínica psicanalítica
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O tratamento psicanalítico de pacientes com TPB apresenta desafios significativos, especialmente devido à intensidade das emoções envolvidas e à instabilidade dos vínculos transferenciais. No entanto, a clínica psicanalítica oferece importantes ferramentas para o manejo desses casos.
O setting terapêutico deve funcionar como um espaço de sustentação (holding), no qual o paciente possa experimentar uma relação mais estável e confiável. A postura do analista deve ser consistente, continente e capaz de suportar as projeções intensas do paciente sem responder de forma reativa.
A transferência, nesse contexto, tende a ser marcada por oscilações semelhantes às vividas nas relações externas do paciente, incluindo idealização e desvalorização do terapeuta. O manejo dessas dinâmicas exige atenção, paciência e capacidade de interpretação adequada.
O objetivo do processo terapêutico não é eliminar completamente as oscilações emocionais, mas promover maior capacidade de simbolização, integração do self e tolerância à ambivalência. Com o tempo, espera-se que o paciente desenvolva formas mais elaboradas de lidar com suas emoções e relações.
Conclusão: A complexidade do sofrimento psíquico involved
O Transtorno de Personalidade Borderline revela-se como uma condição complexa, marcada por intensas oscilações emocionais, instabilidade relacional e fragilidade na constituição da identidade. Os chamados “altos e baixos” constituem uma expressão significativa desse funcionamento psíquico, refletindo dificuldades profundas na integração das experiências emocionais e nas relações com o outro.
A partir da perspectiva psicanalítica, foi possível compreender que tais manifestações estão relacionadas a falhas nos processos iniciais de desenvolvimento, especialmente no que diz respeito às relações objetais e à constituição do self. Os conceitos de Winnicott e Kernberg oferecem importantes contribuições para a compreensão dessa dinâmica, destacando o papel do ambiente e dos mecanismos de defesa na organização psíquica borderline.
No âmbito clínico, a escuta psicanalítica mostra-se fundamental no manejo desses pacientes, ao proporcionar um espaço de acolhimento e elaboração das experiências emocionais. O trabalho terapêutico, embora desafiador, possibilita avanços significativos na integração psíquica e na estabilização emocional.
Dessa forma, compreender os “altos e baixos” no TPB não apenas contribui para o aprofundamento teórico, mas também para o desenvolvimento de práticas clínicas mais eficazes e sensíveis à complexidade do sofrimento psíquico envolvido.
REFERÊNCIAS
KERNBERG, Otto F. Transtornos graves da personalidade: estratégias psicoterapêuticas. Porto Alegre: Artmed, 1991.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1965.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
GABBARD, Glen O. Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.
LINEHAN, Marsha M. Terapia cognitivo-comportamental para transtorno de personalidade borderline. Porto Alegre: Artmed, 2010.
Escrito por Carla Santos
Sou psicanalista e ofereço atendimento online para brasileiros no Brasil e no exterior. Proporciono um espaço de escuta acolhedora e sigilosa, onde você pode falar sobre suas emoções, dificuldades e conflitos sem julgamentos. Te ajudo a compreender sua história, lidar com ansiedade, traumas e relações, promovendo mais equilíbrio emocional.